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Juiz gaúcho profere voto em forma de verso

by Max

Essa é bagual!

Na quarta-feira passada a 2ª Turma Recursal Cível do TJRS julgou recurso relacionado a uma ação, que tramitou perante o Juizado Especial Cível da Comarca de Santana do Livramento, tratando de pedido de indenização por dano moral. Ao proferir seu voto o Juiz de Direito Afif Jorge Simões Neto deixou a verve artística aflorar.

Antes do voto-verso um breve resumo do bochincho:

A peleia teve início quando o autor da ação que é patrão do CTG Presilha do Pago se sentiu ofendido em sua honra pessoal, depois que um Conselheiro Fiscal da 18ª Região Tradicionalista em pronunciamento feito durante o uso da tribuna livre da Câmara de Vereadores de Santana do Livramento teria afirmado que Patrão não prestava contas das verbas públicas que recebia para a realização de eventos. Além disso, o autor afirmou que estas alegações também foram publicadas no jornal local A Platéia. O réu negou as ofensas.

O Juizado Especial Cível de Livramento condenou o Conselheiro ao pagamento de R$ 1,5 mil. Contudo o Conselheiro não afrouxou o garrão, e como bom gaudério, que só sai do entrevero depois de muita peleia, recorreu, o que resultou nesta pérola admirável:

“Este é mais um processo
Daqueles de dano moral
O autor se diz ofendido
Na Câmara e no jornal.

Tem até CD nos autos
Que ouvi bem devagar
E não encontrei a calúnia
Nas palavras do Wilmar.

Numa festa sem fronteiras
Teve início a brigantina
Tudo porque não dançou
O Rincão da Carolina.

Já tinha visto falar
Do Grupo da Pitangueira
Dançam chula com a lança
Ou até cobra cruzeira.

Houve ato de repúdio
E o réu falou sem rabisco
Criticando da tribuna
O jeitão do Rui Francisco

Que o autor não presta conta
Nunca disse o demandado
Errou feio o jornalista
Ao inventar o fraseado.

Julgar briga de patrão
É coisa que não me apraza
O que me preocupa, isso sim
São as bombas lá em Gaza.

Ausente a prova do fato
Reformo a sentença guerreada
Rogando aos nobres colegas
Que me acompanhem na estrada.

Sem culpa no proceder
Não condeno um inocente
Pois todo o mal que se faz
Um dia volta pra gente.

E fica aqui um pedido
Lançado nos estertores
Que a paz volte ao seu trilho
Na terra do velho Flores.”

Como se observa, o relator entendeu que a ofensa não aconteceu, sendo que seu voto foi acompanhado pelos Juízes Eduardo Kraemer e a Leila Vani Pandolfo Machado, reformando a decisão de 1º Grau para negar o pedido de indenização.

Depois dessa decisão, o taura (conselheiro) pode voltar para seu pago de cabeça erguida!

Para acessar a decisão clique no número do processo: 71001770171.

Para facilitar o entendimento dos leitores que não conhecem os termos utilizados, tanto no voto, quanto no texto do post, segue uma breve explicação de cada um deles:

  • Bagual – Potro arisco, rude, redomão, mal domado, recém domado, velhaco. É também usado como adjetivo de algo legal, bom
  • Bochincho, 1. Baile popular. 2. Desordem, briga, bagunça.
  • Chula-(dança masculina) – Reveste-se de particular importância no nosso folclore, pois encarna os traços do propalado machismo gaúcho. Num universo de masculinidade, a Chula era o símbolo do espírito másculo, retratando a força e a agilidade do peão, em clima de disputas. Dança muito difundida em Portugal e também dançada pelos Açorianos. A Chula caracteriza-se pela agilidade do sapateio do peão ou diversos peões, em disputas, sapateando sobre uma lança estendida no salão.
  • Entrevero, s. Mistura, desordem, confusão de pessoas, animais ou objetos. // Recontro em que as tropas combatentes, no ardor da luta, se misturam em desordem, brigando individualmente, corpo a corpo, sem mais obedecer a comando, usando predominantemente a arma branca. O entrevero é uma luta de extermínio, onde o sangue corre com abundância e os mortos e feridos são inumeráveis, pois, em geral, cada participante briga com fúria e decisão, preferindo morrer a recuar ou entregar-se.
  • Garrão – Parte da perna, o calcanhar do boi. Afrouxar o garrão – Acovardar-se, dobrar as pernas.
  • Gaudério, s. e adj. Pessoa que não tem ocupação séria e vive à custa dos outros, andando de casa em casa. Denominação dada ao antigo gaúcho, em sentido depreciativo. // Índio-vago, andarengo. // Pessoa que viaja muito. Gaúcho.
  • Pago, s. Lugar em que se nasceu, o lar, o rincão, a querência; o povoado, o município em que se nasceu ou onde se reside. Geralmente usa-se no plural.
  • Peleia, s. Peleja, pugilato, contenda, briga, rusga, disputa, combate, luta entre forças beligerantes.
  • Taura, s. e adj. Diz-se de ou indivíduo valente, arrojado, destemido, valoroso, forte, guapo, resistente, enérgico, folgazão, expansivo, perito em algum assunto, que está sempre disposto a tudo.
  • As definições dos termos gaúchos podem ser encontradas nos sites abaixo:

  • Patria Pampa
  • Kleiton e Kledir
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